21/02/2013

Histórias Sobre Fotografias: Vaguear Pela Sombra

 
Vagueiam por toda a parte. Ora vagarosas, ora apressadas, umas levando a vida passo a passo, outras correndo atrás dela. São as sombras que habitam a cidade e a levam para a frente ou para traz, consoante as marés. No mar de gente que todos os dias inunda as ruas e avenidas, as praças e ruelas, ou mesmo os becos sem saída, há sombras que se movem transportando a verdadeira essência dos corpos. Essência que, quase entorpecida, só se revela na cumplicidade com o espírito, nos encontros a dois revestidos de clandestinidade. Como velhos amantes, sombra e espírito trocam confidências de alcova que só para eles fazem sentido.
A sombra enaltece aquilo que de mais genuíno o espírito tem, e ele, por sua vez, ensina-lhe os truques para se esgueirar entre a fantasia e a realidade. Fórmula humana de a alma viver em liberdade. Mesmo quando o corpo sobrevive a prazo numa existência moribunda, a sombra, sempre ela, guarda a réstia de dignidade que persiste mesmo nos corpos sem destino. Ou o lado oculto do Ser, que com ele coabita numa vivência equilibrada de querer e poder. O que se mostra nem sempre é o que se quer mas o que se pode, porque há o verso e o reverso do espelho, cada alma é assim. Ora transparente, ora opaca, balançado entre a fantasia e a realidade, entre a mentira e a verdade. Cada sombra carrega o seu corpo, criando a simbiose perfeita entre parasita e hospedeiro numa relação de sobrevivência.
E dessa forma os corpos vagueiam pelas sombras, como um só Ser, que são, na diversidade de um mundo cada vez mais igual.
 

4 comentários:

Clementina Barros disse...

Simbiose perfeita? sem dúvida, em que o belo texto descreve a foto, e a bela foto, inspira o texto Como sempre Luisa, é um gosto ler o que escreves.
Bjs.

JoséManuelBarbosa disse...

... e tudo se torna mais claro, digo clarividente, quando temos a coragem de habitar as nossas próprias sombras.

Conferindo-lhes vida própria e desejos e esperanças e sofrimento e prazer... vida!

Obrigado, Luísa Vaz Tavares, por mais uma prosa digna da tua pena e do teu espírito!

Beijo grande ;)

Luisa Vaz Tavares disse...

Obrigada, Clementina.

Beijo grande!

Luisa Vaz Tavares disse...

Obrigada eu por mais esta fotografia - este álbum - inspiradora.

Estou a gostar tanto de escrever estes textos.

Beijo imenso, Zé!