15/02/2013

Histórias Sobre Fotografias : Metro do Porto [Casa da Música]

 
Observava atentamente a ladainha dos jovens que eram praticamente a totalidade dos passageiros, àquela hora do dia. E sonhava. Ele também já tinha tido aquela energia, aquela mesma disposição, aquele mesmo vigor e aquele mesmo jeito para catrapiscar as raparigas. Que agora lhe pareciam mais atrevidas, diga-se de passagem. Coisas dos tempos, os tempos mudam e mudam também os comportamentos. Mas, mal feitas as comparações, será que as coisas mudaram assim tanto? Os jovens continuam a ter sonhos, a fazer projectos para o futuro, a querer ser mais e melhor. Ele percebia-o pelas conversas de uns e de outros que ia ouvindo ao acaso. A questão é se esses sonhos se tornarão realidade, ou se esses projectos se concretizarão, ou ainda se um dia serão mais e melhores. Melhores pessoas, claro. Ele, melhor que ninguém, sabia quantos sonhos se podem perder ao longo de uma vida, e quantos projectos não passam disso mesmo. O quanto a vida pode moldar uma pessoa. Tinha-o sentido na pele.
Acabava de pagar a sua dividida para com a sociedade. Conversa esta mais hipócrita, tinha sofrido as consequências dos seus erros, isso sim. Tanto tinha ambicionado ser mais que se esquecera de ser melhor. Foi atrás do dinheiro fácil, encantou-se com as ostentações de luxo que passou a presenciar, e daí até ao mundo do crime foi apenas um passo. E por isso tinha passado os últimos vinte anos a ouvir dizer que tinha de pagar a sua dividida para com a sociedade, e que se tinha de reabilitar para essa mesma sociedade. Tretas, só tretas. A sociedade é que precisava ser reabilitada, e com urgência. Antes que fizesse com aqueles jovens o mesmo que tinha feito com ele. Agora que eles ainda traziam com eles os projectos dos bancos da faculdade e ainda se lembravam de ser antes de ter, talvez ainda fosse tempo.
E de repente, o metro parou. Embrenhado nas divagações nem tinha percebido que se aproximava da sua estação. Era ali que devia ficar, dali iria a pé até casa. O apartamento quase em ruinas no centro da sua invicta cidade do Porto, que tinha herdado dos pais. Pegou na mala onde guardava os seus poucos pertences e saiu, caminhando devagar. Estava velho, aos cinquenta e cinco anos.  


 
 
 

2 comentários:

JoséManuelBarbosa disse...

Os tempos mudam e a vida muda num instante...

Quem nos garante lugar cativo em que sítio for? O pior de tudo é que alguém se possa sentir velho aos cinquenta e cinco anos de idade...

Ao menos que a mala amarrotada desse velho se abra de tantas recordações e vidas passadas...

Que mais posso eu dizer, Luisa? Continuas a mimar-me como nem eu mereço, talvez.

Obrigado pelo teu texto lindo a propósito do "meu" metro ;)

Luisa Vaz Tavares disse...

Se tu me agradeces eu tenho de te agradecer também, porque são as tuas excelentes fotos que suscitam as minhas palavras.

A vida muda num instante, é verdade, mas de uma coisa eu sei, nem eu nem tu seremos velhos aos cinquenta e cinco anos.

Beijo para ti!