18/05/2018

O Sonho do João - Parte II


Pintura de Cesare Pergola

Levantou-se e foi para a janela.
Pôs-se a olhar para o céu,  
com a expressão de quem sonha.
Viu uma centelha luminosa,
que avançava no escuro de breu.
- Mas que imagem tão bela!
Exclamou, com voz melodiosa.
Não acreditava em tão bela visão.
Era uma sorte tamanha,
encontrar ali a sua solução.



Aproximando-se pouco a pouco,
a centelha transformou-se em estrela.
- Não, não posso estar louco…
- baixinho, o João murmurou.
De olhos arregalados, olhou para ela.
Viu-a pôr-se a jeito para ele subir,
mas ele assustou-se e recuou.
- Com certeza, estou a dormir,
as estrelas não entendem a gente,
nem sabem o que a gente sente.


Ainda assim, a estrela ficou ali,
como que a chama-lo.
Não se lhe ouvia a voz,  
era apenas um luminoso clarão,
mas no coração, o João sentia
que devia confiar e ir.
Como que a encoraja-lo,
algo dentro de si lhe dizia:
- a estrela está aqui só por ti, 
para te levar pelo céu a passear.  



17/05/2018

O Sonho do João - Parte I

Pintura de Marcela Oliveira de Faria

O João tinha um sonho,
um sonho muito audaz.
Sonhava ver o mundo
lá de cima de uma estrela,
mas não sabia se era capaz.
Às vezes, até conseguia vê-la,
por uma fracção de segundo.  
E então, com o seu ar risonho,
imaginava-se a descolar.
Sobre ela, subir aos céus e viajar.





Mas tudo não passava
de um delírio da imaginação.
Logo tornava a pôr os pés no chão
e de cabeça baixa, caminhava
por todo o seu jardim
sem acreditar que não voava.
Ia do princípio ao fim,
à espera de encontrar a solução.
Quem procura sempre acha,
desistir do sonho é que não.





Até que um dia, pela noite,
já deitado na sua cama,
contava carneiros para adormecer.
O sono tardava em chegar,
não sabia o que havia de fazer.
Os pensamentos não paravam,
atingiam-no como açoites,
ou como sentimento que chama,
com a urgência de encontrar 




06/05/2018

A Partilha

Pintura: As Irmãs de Renoir

Elas eram grandes amigas. Partilhavam as brincadeiras, os segredos e as confidências de criança… e partilhavam também o caminho para a escola. Naquele tempo, lá no longínquo início dos anos cinquenta do século XX, as escolas ficavam longe, para as meninas e meninos que moravam no campo. Por vezes, percorriam diariamente longas distâncias a pé. Aqueles que tinham o privilégio de poder ir à escola. Quantas vezes, ou porque os pais precisavam do trabalho deles, ou porque não estavam despertos para os benefícios da escolaridade, simplesmente não iam.
Elas as duas, uma porque os pais podiam prescindir do seu trabalho, outra porque os pais nem trabalho tinham para a ocupar, iam. Todos os dias de manhã, com a bolsa dos livros, cadernos e lápis às costas e a lancheira na mão, andavam os quilómetros que as separavam de um futuro mais iluminado pelo saber ler e escrever.
Na lancheira levavam o almoço, e era ai que estava o que as distanciava. Mas que mais que isso as aproximava. A uma, a mãe procurava sempre os melhores “petiscos” para lhe enviar merendas variadas, à outra a mãe só tinha cebola frita com pão para lhe enviar. Mas, porque eram grandes amigas, a que levava merendas variadas sempre as partilhava com a amiga.




Há mães que nos inspiram para a uma certa maneira de ser, apenas com as suas histórias de vida.  




17/04/2018

Mulher Primavera

Foto encontrada na net sem referência ao autor 

Primavera
Assume-te fecunda
De novas vidas a florescer
No teu corpo de mulher
Desnuda de todo o pudor
É teu o poder da gestação
Acto quase transcendente
O de dar novas vidas à vida
No chão que germina a semente
Em teu ventre de fémea
Sempre a atrair sedução
Há a magia da reprodução
E a história de outras eras

Porque tu és mulher, Primavera! 



16/04/2018

Em "Acrescenta Um Ponto Ao Conto"


Em “Acrescenta Um Ponto Ao Conto” escrevemos contos a várias mãos. Semanalmente, um dos participantes escreve um capítulo que faz parte da história que nesse momento estamos a desenvolver. Não é fácil pegar num enredo que vem de trás e dar-lhe continuidade de forma coerente e criativa, mas é uma experiência enriquecedora. Nem sempre o rumo que a história toma é aquele que escolheríamos, e por vezes até nem gostamos, mas aceitamo-lo, trabalhamo-lo e no fim conseguimos que seja nosso.
Claro que para tudo isto é necessário que haja abertura de espírito e por isso felicito os meus companheiros de escrita.

Esta semana foi a minha vez de acrescentar um capítulo ao conto “Voar Sem Asas”






13/04/2018

Ti Alfredo

Fotografia©Maria João Solano Silva


“Ti Alfredo”… para os alegretenses e para tantos outros por cujas terras passava a alvorecer festas e romarias. Mestre na sua arte. Todos os anos, no dia quinze de Agosto pelas sete da manhã, lá estava ele no alto da muralha a anunciar o início dos festejos. Festas em honra de Nossa Senhora d’Alegria, das mais antigas do Alentejo e quiçá do país. O momento era de emoção, era o momento que acordava toda uma população, ansiosa por cumprir a tradição que há nascença herdara. E ele sabia-o: demonstrava-o pela forma minuciosa com que fazia cada sequência de fogo. Era diferente em cada festa. As casas de família, cheias com os residentes e com os que regressavam, ano após ano, sempre naquela data, despertavam assim durante aqueles dez ou quinze minutos de estrondosa alegria. De seguida, ouvia-se a banda. Por todas as ruas da vila, a banda soltava melodiosos acordes e instalava-se o clima de festa, que durava pelos próximos dois ou três dias.
A banda, essa ainda continua a acordar a população, todos os anos, no dia quinze de Agosto, pelas sete da manhã. Mas o “Ti Alfredo”, nunca mais soube nada dele. Os “Ti Alfredos” já não podem alvorecer festas e romarias.




02/04/2018

Saio Pela Tardinha - in Alegrete em Poesia




Saio pela tardinha,
sentindo o aroma das flores
e a brisa que refresca a noite,
anunciando-se mansinha,
traz com ela os seus odores.

Mescla de alma com sentimento,
frutos maduros e roseirais,
há no ar um encantamento
ao ouvir o canto dos pássaros,
que se espraiam nos beirais.

Embalo dos meus sonhos, 
do meu eu mais profundo.
Mesmo querendo mais, 
retorno sempre cá, do mundo
onde me exponho.

Para não permitir que adormeça,
no meu ser dolorido,
a força do meu coração.
Embora reconheça com emoção,
amor assim jamais será esquecido. 


          Esta é uma obra simples e singela - como são as coisas belas da vida - onde se reúnem alguns poetas de Alegrete, que com muita honra coordenei.