03/02/2017

Eu gosto de pessoas

Fotografia de rinaldo romani

É bem verdade que a humanidade me desilude, às vezes. Quando acontecem as maiores barbaridades em nome de um qualquer ideal, quando a compaixão se perde no meio de interesses duvidosos ou até mesmo quando a intolerância perante quem está lado a lado se manifesta, o meu crer desvanece-se com certeza. Chega a quase desaparecer por completo. Porque o propósito da vida não é esse, isso afirmo-o com toda a minha convicção. Mas depois, surgem as coisas mais bonitas que se podem imaginar e torno acreditar.
Porque eu preciso! Preciso acreditar no que me faz bem. E acreditar na humanidade faz-me bem. Serei ingénua, talvez. Ou egoísta, pode-se dizer. Porque esta é a minha forma de sobrevivência. Posso morrer mil vezes de desilusão, mas ressuscitarei sempre a cada gesto de amor universal.

Eu gosto de pessoas…


27/01/2017

Acasos

Fotografia de Marta Cernicka |

Há acasos que podem salvar dias.
Quando o sol não aparece pela manhã
e o canto dos pássaros se deixa de ouvir,
perdido na inquebrável cinzentania
que esconde a esperança, ainda que vã.
Se no vento perdido voa um certo florir
de sementes que fecundam o chão
e irradiam os magnetismos do coração.
Sente-se o perfume que se espalha no ar,
em gotas de total embriaguez.
Síndrome de grande alheamento, talvez,
a tudo o que tende a desintegrar
o destino dos dias que nascem sem aso
e por uma flor que desponta vadia,
são salvos ao acaso.



26/01/2017

Vem ter comigo

Fotografia de Jana Vanourkova

Vem ter comigo,
em ondas de azul marinho…
mas vem de mansinho.
Quero-te assim, indelével,
a fingir que não te instigo.
Porque o meu querer não é breve,
nem se dissipa em qualquer tarde.
Precisa de sentir entranhares-te,
como a fogueira que arde…
e depois consumir-te num momento,
em braseiro de fogo lento.   



25/01/2017

A Noite... e Eu


Fotografia de Bianca Van Der Werf

Gosto da noite. Gosto de me envolver nos mistérios que ela inspira, percorrer passo a passo os meandros de um encanto que é só seu e depois, ir até ao fundo de mim. Há muito de semelhante em nós… as escuridões onde só entra quem não tem medo de se perder e os enlaces que prendem sem querer. Ambas feiticeiras de um pecado sem freio, aprisionamos os sentidos em ânsias de vermelho escarlate. Roubamos o brilho da lua cheia e pairamos nas ondas do mar. Ora maré vazia, ora maré cheia. Sempre em plena harmonia com o que alma anseia.



22/01/2017

Vou encontrar-te... um dia

Foto de Piotr Kowalik

A qualquer hora
de um dia menos pensado,
vou encontrar-te.
Andarei sem me importar a demora,
estarás em algum lado.
Depois, senhora de ti, vou resgatar-te.

Far-te-ei meu prisioneiro,
capacho dos meus mais vis caprichos.
Dominarei a tua vontade
e com os ferros da prisão, serás ordeiro.
Rastejarás nos nichos,
onde um dia cultivaste a tua vã crueldade.

Saberás que não te aceito,
ainda que queiras fazer de mim marioneta,
sem nenhum tino.
Jamais haverá, na subtileza, algum jeito
da minha alma inquieta
se deixar prender  nas anaias do destino .



19/01/2017

Chegaste poesia


Fotografia de Vittorio Pellazza

Chegaste tarde…
emergindo por entre a neblina,
que cobria a noite.
Contigo, trazias a chama que arde
sempre em rima,
dos versos que surgem sem mote.

O tempo fez-se poema…
no instante da esperança perdida,
sem sol para amanhã.
E um desabrochar de açucenas
sem medida
renasceu nos veios da pedra Ançã.

Vestiu-se a vida de poesia…
assim, naquele tempo que estava nublado.
Palavras pequenas
passaram a surgir numa senda de alegoria
ao sentir acabado,
jorrando em fluxo do bico de todas as penas.



16/01/2017

Tempestade


Fotografia de Václav Širc

              Deixa! Deixa que a tempestade venha e me inunde por dentro. Deixa que me arranque para sempre os resquícios daquele deserto, que me secou os sentimentos. Mesmo que venha forte, deixa que venha. Só assim ficarei livre da guerra dos tormentos.
            Porque eles estão arreigados em todos os momentos e a minha força é pequena para que os desfaça, simplesmente. Preciso da força da tempestade para os arrastar, longinquamente. Que os leve, que os derrame ao vento. Para que atravessem montes sem voltar para trás, ou marés em contracorrente.
            Deixa vir a tempestade, para que eu possa seguir livremente!