18/03/2014

Os Caminhos da Felicidade

A felicidade é um caminho natural e inerente a cada ser humano. Ninguém nasce para ser infeliz. Há é, muitas vezes, a perda ou a troca do caminho a seguir. Por engano ou por opção, a postura que cada um adopta perante a vida tem implicação directa no seu estado de felicidade ou infelicidade. A felicidade não se adquire, como um bem exterior que se agrega ao corpo, ela constrói-se por dentro. Com a alma, com o espírito, no íntimo das nossas convicções. Adoptando comportamentos que geram bem-estar, paz de espírito e plenitude de alma.
Uma pessoa feliz não faz a sua felicidade depender dos outros, não se deixa dominar por sentimentos negativos, não cultiva ressentimentos nem situações que lhe causam ansiedade, depressão ou stress. Para quê, desperdiçar, com revoltas, o tempo que pode ser ocupado com as coisas boas da vida?
Ser gentil, tratar os outros com dignidade e respeito permite construir relacionamentos mais fortes e duradoiros. Praticar o bem, ser solidário, provoca satisfação e bem-estar. Porque a lei do retorno existe e está constantemente em execução. Ninguém é uma ilha e cultivar relacionamentos saudáveis é fundamental para o bem-estar do espírito.
Fazer de cada problema um desafio, uma oportunidade de superação, uma aprendizagem para fazer mais e melhor, torna-nos mais fortes e seguros. E pessoas mais seguras de si próprias são mais felizes. Não vale a pena ver os problemas como desvantagens, eles têm que ser resolvidos e se concentrarmos as energias na sua resolução mais facilmente eles desaparecem.
Valorizar aquilo que se tem dá um sentido mais profundo de plenitude. Embora o desejo de querer mais e melhor seja legítimo, esse desejo nunca deve ser uma ansiedade mas sim um estímulo para ir mais além. Sonhar, projectar, em grande, prepara a mente para uma atitude positiva, mas com a consciência da importância do que já se tem. Se há coisas pequenas que são importantes, há outras que não merecem a mínima atenção, por isso há que saber filtrar o que realmente importa.
Saber ver nos outros o melhor que eles têm leva-nos a pensar positivo, sem ter necessidade de julgar. Procurar caractericas negativas gera negativismo. Ninguém é culpado dos erros de ninguém, assumir os próprios erros ajuda a caminhar para melhorar. Cada ser humano é uno e tem o seu próprio caminho a percorrer, as comparações são sempre injustas e levam a sentimentos de superioridade ou inferioridade que impedem o progresso. Cada pessoa deve seguir o seu próprio caminho, construi-lo à sua medida, sem procurar a aprovação dos outros. Deve ouvir, trocar opiniões, aconselhar-se, mas tirar as suas próprias conclusões e fazê-las prevalecer.
Cada pessoa deve procurar ter pleno conhecimento de si mesma, gostar de si e sentir-se bem na sua própria companhia. Estar em silêncio sem que isso a incomode e conhecer os próprios limites. Deve exercitar a mente e também o corpo. A frase feita “mente sã em corpo são” é absolutamente certa.
Se é verdade que o passado foi importante para a construção daquilo que somos hoje, também não é menos verdade que é uma realidade já passada, por isso há que viver plenamente o presente, com a consciência do papel do passado mas valorizando acima de tudo o presente.

Fotografia: Zé Luís Brás

Viver com o que é necessário e dá conforto, mas dispensar o que não faz falta. Os excessos incomodam, como tal, cada um deve ter consciência do que precisa e do que o sobrecarrega. Deve viver com a sua realidade e não abdicar da sua verdade.
Ter consciência daquilo que depende, ou não de nós é também um caminho para a felicidade. Adaptando-nos ao que não pode ser mudado e empenhando-nos no que podemos mudar.

Acima de tudo, a felicidade depende das escolhas que ao longo da vida se vão fazendo. Sendo que o objectivo não é a meta mas sim o percurso que se vai fazendo a cada momento. A felicidade não é um estado absoluto e imutável, a felicidade é uma construção contínua ao longo da vida.



02/06/2013

Histórias Sobre Fotografias: Gaivota Tridáctila

 
Atenta, ela assistia ao zarpar dos navios. A gaivota tridáctila, de corpo miúdo e voo ligeiro, que espalhava ao vento as mensagens do mundo. Notava-se-lhe um certo ar de tristeza, havia dias que estava em terra sem que, no mar, houvesse sinais de tempestade. Mais um navio se afastava, lá se ia equilibrando na crista da onda. Outra gaivota sobrevoava a embarcação, da popa à proa, ia e volteava, num vaivém de voos tangenciais. Vento frio, gélido no rebentar das ondas, e o grito da companheira. Lembrava-se de tudo menos do momento em que ela se havia prendido nas amarras do navio. Se o tempo é um limador de arestas, certamente, um dia iria recordar aquele quadro com a melodia da saudade.
Luz, textura, cor. Escuridão. O vento sopra forte e o navio adentra-se na tempestade. Enraivecem os gigantes dos mares. As ondas embatem no farol e intensifica-se o ruido que vem do quinto dos infernos, onde os demónios lutam pelo domínio das águas e dos ares. E das gaivotas que voam livres, espalhando as mensagens do mundo. Quantas tinham sido as tormentas que, juntas, haviam passado na fresta de uma falésia escarpada? Tantas, tantas que não daria para as contar. E os voos rasantes, na praia, sob as estrelas e o luar. Havia mais uma estrela no mar.
Amanhã, empreenderia novos voos solitários. Talvez em bandos, quem sabe!... Amanhã voltaria a voar. Porque quem volta tem sempre uma história para contar.


15/05/2013

O Monstro do Amor - Ocultos Buracos


A colectânea “Ocultos Buracos” é uma obra da Pastelaria Studios Editora  onde os vários autores, dando largas à imaginação, escreveram Histórias Horríveis ou Impossíveis. Esta é a minha história impossível nesta colectânea.


O Monstro Do Amor

O tempo passara rápido, tão rápido que nem dei pelas primeiras estrelas se erguerem no céu. Deambulando por ali e tentando afastar a melancolia que me preenchia a alma sentei-me no chão macio de capim quase ressequido pelo calor da planície e fiquei a observar os últimos raios de sol daquele dia, que fora mais um daqueles em que as estrelas se incendeiam antes de chegarem à noite. E num ápice, o sol já se recolhera no horizonte do seu descanso nocturno, deixando-as apenas a elas, as estrelas que eu via erguerem-se uma a uma no céu de veludo que brevemente seria negro...

- Não tarda e a lua aparecerá bem lá no alto qual rainha dos céus.

Sem que eu tivesse tempo nem mesmo para me refazer do susto e já aquela criatura se sentava ao meu lado fazendo-me sentir tal arrepio pelo corpo acima que a minha única reacção foi apertar-me com os meus próprios braços, abraçando-me a mim mesma. Não o tinha sentido aproximar-se, estava talvez demasiado concentrada na minha imensurável melancolia mas a verdade é que aquele ser de aparência esquisita veio em pezinhos de lã.

- A lua, a linda rainha dos céus está quase a chegar. – Repetiu, fazendo com que me virasse na sua direcção e como que com um íman os seus olhos atraíssem os meus, ao contrário do que tinha visto antes, que me parecera um monstro de um filme de terror, via agora um olhar meigo que me envolvia com toda a ternura do mundo. Era magnético aquele olhar castanho de mel, adoçava-me por completo o espírito e a alma. A melancolia que me levara para ali desaparecia completamente e a voz saiu-me num sussurro.

- Sim, a lua…

- Hoje é lua cheia e eu sei que tu adoras a lua cheia.

Sim, é verdade que nutro um certo fascínio pelas noites de lua cheia. A noite da planície iluminada, apenas, pelo brilho da lua cheia assemelha-se ao mais belo quadro que algum pintor jamais pintou. Mas como é que alguém que eu nunca vira sabia deste meu fascínio? A não ser que… não, não podia ser. A única pessoa que me provocava aquelas sensações era alguém por quem eu me vinha apaixonando e que as minhas amigas apelidavam de monstro, mas ele não era monstro, era tão bonito no seu porte de homem sensual, o rapaz mais bonito do liceu. Como é que alguém podia dizer que aquele rapaz de olhos castanhos de mel e corpo musculado, na medida certa, era um monstro?

Definitivamente não era ele. Mas sentia-me tão bem naquele abraço em que o seu olhar me envolvia. Aproximei-me mais e pude ver os lábios que emolduravam um sorriso estampado numa boca perfeita. Senti vontade de o beijar. Possuída por um impulso momentâneo cerrei as pálpebras e fiquei de boca entreaberta para saborear o beijo, senti-o aproximar-se, o hálito macio e os lábios quase colados aos meus disseram-me que o seu olhar passava de ternurento a apaixonado. O beijo foi delicado mas intenso, exigente e de total entrega. E eu, eu abandonei-me por completo ao deleite que aquela boca espalhava por todo o meu corpo.

Devagar e enquanto, com o olhar me aprisionava a alma, vestiu o meu corpo de caricias, mãos de seda que me faziam alcançar as nuvens e, na noite, choveu. Choveu uma chuva de prata que o fez inundar-se de mim, quando para me proteger, poisou o seu corpo sobre o meu. E juntos olhámos o céu. Nada mais existiu para além dos corpos sintonizados com a natureza… e a lua. A lua que desde que subira sobre o manto de veludo negro se tornara nossa cúmplice. Cantos de anjos se entoaram nos céus, desafiando o meu Deus, o meu Deus grego do amor, a entoar com eles a paixão. E assim se compuseram as mais belas melodias de amor.

Depois, depois a dança de uma coreografia arrojada sob o olhar cúmplice da lua, até aos últimos passos que explodiram em êxtases de corpos e almas fundidos num só.

E finalmente, paz! A paz dos espíritos que num mundo de total serenidade se pertencem.

Senti a felicidade em toda a sua plenitude e quase jurava que ele também. Entre promessas e beijos adormecemos… até que os primeiros raios de sol anunciaram a alvorada.

- Tu não és um monstro… - Soltaram-se-me da boca, as palavras, antes mesmo que o meu raciocínio, ainda adormecido, as pudesse processar.

-…?!

- Ontem à noite estavas diferente.

- Diferente, como?

-Eras um monstro… um monstro amoroso.

- O teu monstro do amor?

- Sim, o meu monstro amado!

12/05/2013

A Ti, Enfermeiro

 
Ciência ou arte…
é o dom de cuidar.
Cuidar do corpo, cuidar da alma,
amenizar o sofrimento e a dor…
cuidar da vida com amor,
assim como o jardineiro cuida da flor.
Tu, ENFERMEIRO
que zelas à cabeceira das fés perdidas,
descobres forças desmedidas,
e estrelas nascem na tua mão.
Chegas serenamente, máscara de calma
na tua face, voz de esperança. Seguramente,
és gente que cuida de gente…!
 

11/05/2013

Histórias Sobre Fotografias: Foz do Douro - Porto


Não tinha hora certa, era quando o coração se lhe apertava com saudades do mar. Calçava as galochas, vestia o velho casaco de marinheiro e descia, ligeiro, até à foz. Ficava ali por tempo indeterminado, nem ele mesmo sabia se eram horas ou dias, que duravam os êxtases que o prendiam entre o estuário do rio e a longitude do mar. A cana de pesca era um mero acessório, jamais levara um peixe para casa. Quando algum, por descuido, mordia o anzol, oferecia-o às gaivotas que em troca lhe contavam histórias de outros mares.

Desde sempre, que era esse o fascínio que nutria pelo mar. O mar tocava outras terras, outros continentes, e conhecia outras gentes. O mar trazia notícias de mundos diferentes. Mundos que ele sempre sonhara conquistar. Nunca tinha ido para lá da praia, nem mesmo conhecia, por dentro, um grande navio, mas gostava de navegar. Oh, se gostava! Ali, mesmo, naquele cantinho da foz, quantas viagens de circum-navegação não tinha já feito? Nem lhes sabia a conta. Era só embarcar num sonho e o mar abria-lhe caminho para a aventura, levava-o por ventos e tempestades, ondas calmas ou revoltas… até ao infinito das marés.

12/04/2013

O Perfume de Alegrete - Livro

 
Embora contenha alguns apontamentos históricos, este livro não pretende ser um documento histórico nem monográfico. É apenas um retrato de sentires, formas de ser e estar, na vida e perante ela. Um retrato subjetivo, com certeza, porque escrito com toda a minha alma Alegretense. Ou lagarteira, como é costume dizer-se por cá. Através de uma história fictícia e com personagens igualmente fictícios tento mostrar as vivências, as lendas e as tradições desta terra. Uma forma de ser genuína e uma maneira de estar única e inabalável. Poética, apaixonada e orgulhosa.

28/03/2013

Histórias Sobre Fotografias: Casablanca

 
 
Pela enésima vez surpreendia a avó com os olhos pregados ao ecrã, completamente absorta, embrenhada nas sensações daquela trama a preto e branco. Casablanca, era o nome do filme. Um best-seller do século passado que a ela não dizia coisa nenhuma. Ternamente a avó estendeu-lhe a mão fazendo-a aconchegar-se no seu regaço. Tinha aproximadamente a sua idade quando tudo acontecera. Uma grande parte da alta sociedade espanhola rumava ao norte de Africa, fugindo aos resquícios de uma guerra civil que não se compadecia com ninguém. Nem mesmo com as famílias de quem se movia nos altos meandros da política. Ou, especialmente, com elas. E ela, recém-casada com um dos principais líderes da revolução, tornara-se um alvo fácil.

Por circunstâncias, ou por um qualquer contratempo, foi parar a Casablanca, onde já se estabelecia uma grande percentagem da elite europeia. Sentindo os indícios de uma guerra que não tardaria em começar, os senhores do poder punham os seus entes queridos a salvo. Mas eram principalmente as madames francesas que ali se encontravam, as mulheres e filhos dos magnatas espanhóis estabeleciam-se em territórios periféricos, sensivelmente mais a norte. Desde que, há algumas décadas atrás, os dois estados tinham decidido partilhar a supremacia sobre aquele reino de sultões que Casablanca era um protetorado francês.

E assim, ela se viu sozinha no meio de desconhecidos. Entre as mademoiselles francesas, que se exibiam em clubes privados ostentando luxo e riqueza, e a população local, onde se denotava uma certa pobreza, mas também, a autenticidade, o tradicionalismo, alguma ingenuidade e muito encantamento. Deambulava pelo universo das emoções e deixava que o corpo se embebesse em visões, cheiros e sabores, naquela terra onde as mulheres escondiam o corpo até ao rosto. Entre a cidade cosmopolita e os bairros tradicionais de mercados ao ar livre. Não passaram muitos dias até que se encontrasse com Mahamed, o vendedor de fruta que lhe desvendou o sentir, mesmo através do véu que passou a usar para melhor se entrosar com a população local.

No início eram apenas os olhares, num diálogo intenso que revelava mais que uma conversa de palavras, os dois, frente a frente, um de cada lado da banca de venda. Absorviam sofregamente os aromas dos frutos tropicais. Mas a inevitabilidade daquela paixão não permitiu que se mantivessem tão longe quanto a distância da largura da banca de frutas, e os prelúdios na suite de hotel, que o marido luxuosamente pagava, não se fizeram esperar. E os passeios, escondidos, pelos monumentos e zonas históricas, durante o dia, precederam noites escaldantes onde se desnudava de todos os véus. Até que um dia a guerra acabou, e o célebre senhor da política, agora instalado no poder, a resgatou para o seu papel de esposa. Acompanhante de luxo nas altas reuniões político-sociais.

Avó, a minha mãe?... A tua mãe nasceu alguns anos mais tarde. E a indústria cinematográfica fez Ingrid Bergman e Humphrey Bogart criarem estes dois monstros sagrados, que alimentam as minhas recordações.